terça-feira, 6 de maio de 2008

Toxina da cascavel pode funcionar como tônico muscular

Poderoso analgésico, anti-tumores, transporte de medicamentos e agora também tônico muscular. Mais um item se soma à lista de propriedades da crotamina, uma toxina do veneno da cascavel. É o que constatou a toxinologista Saraguaci Hernandez Oliveira, através de um trabalho de pós-doutorado que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Sob a supervisão da farmacologista Léa Rodrigues Simioni, do Departamento de Farmacologia da Unicamp, Saraguaci verificou o aumento da força muscular esquelética produzido pela crotamina em ratos vivos. Esse efeito se manifestou também em músculos esqueléticos isolados de camundongos e foi capaz de reverter até mesmo a paralisia provocada pela tubocurarina, um potente relaxante muscular.

Uma das possíveis aplicações da crotamina seria servir de modelo para a síntese de medicamentos que aumentariam a força de pacientes acometidos por doenças que causam fraqueza muscular - como a miastenia gravis. Por isso, Saraguaci teve de avaliar também a toxicidade da substância. “A dose em que a crotamina aumentou a força nos ratos foi muito menor do que aquela em que a toxina foi letal para os animais”, diz a pesquisadora. Apesar das espectativas, por enquanto, Saraguaci demonstrou a ação tônica da crotamina apenas em animais normais. O próximo passo da pesquisadora é testar a ação da toxina em animais com miastenia gravis. Para isso, ela produziu em laboratório ratos miastênicos.

Isso só é possível porque já se sabe que a miastenia gravis é uma doença auto-imune, isto é, o organismo dos portadores da doença (miastênicos) produz anticorpos que atacam e danificam certas proteínas do corpo - os receptores nicotínicos - elementos essenciais na sinapse (comunicação) entre o nervo e o músculo. Sem esses receptores, ocorre fraqueza e paralisa muscular. Por essa razão, Saraguaci imunizou ratos com receptores nicotínicos. Ao injetar pequenas quantidades desses receptores nos animais, a pesquisadora fez com que seus organismos desenvolvessem anticorpos contra eles. Depois de algum tempo, os anticorpos reconheceram e atacaram também os receptores previamente existentes no corpo dos ratos, imitando, assim, a miastenia gravis em humanos.

Se a crotamina for capaz de aumentar a força dos ratos miastênicos, ela poderá ser apontada como um modelo para a fabricação de medicamentos alternativos para combater os sintomas da doença. Embora já existam medicamentos para esse fim, eles produzem diversos efeitos colaterais que atingem os pacientes mais sensíveis. Isso acontece porque os medicamentos disponíveis atuam de modo indesejável em vários locais do corpo.

A pesquisadora revelou que pretende ainda avaliar se a crotamina melhora o desempenho dos ratos miastênicos enquanto eles se exercitam em esteiras. Os portadores da doença costumam apresentar fraqueza muscular quando se submetem a exercícios físicos. E como a crotamina é danosa às células musculares, Saraguaci vai verificar também a relação entre a dose tóxica e a dose terapêutica (tônica).

A crotamina é famosa por exibir diversas propriedades de interesse médico. Além de ter sido considerada um analgésico mais potente que a morfina, recentemente foi apontada como uma inibidora da formação de tumores e transportadora de agentes ao interior das células.


Com Ciência - Revista Eletrônica de Jornalismo Ciêntífico

3 comentários:

Cecília disse...

Oi, estou estudando sobre miastenia grave, será que podemos manter contato?
gostei muito do seu blogger...
tem msn?
c tiver me adicione por favor meu nome é cecilia
cecisamonte@hotmail.com

Denise Arcoverde disse...

Bruna, estou adorando ler tudo que tem em seu blog, voce explica bem direitinho.

Eu fui diagnosticada com fibromialgia, depois de anos sem ninguem identificar a causa do meu cansaço eterno, algumas dores e uma visao dupla que vai piorando consideravelmente a cada ano.

Ontem, fui a um oftalmologista especializado em musculos (moro nos EUA)e ele falou, pela primeira vez em miastenia grave. Amanha vou fazer um exame de sangue.

Pode nao ser, mas fiquei curiosa em entender mais esse problema. Uma diferenca em relacao a meu caso é que eu nao melhoro em repouso e minha visao dupla está presente o tempo todo, não apenas quando foco a visão (ouvi dizer que é o caso de quem tem MG).

Uma coisa que sempre me chamou atenção é uma certa fraqueza na mandibula, nunca percebi nenhum problema pra mastigar, mas sinto como se tivesse que fazer esforço pra fechar a boca, entende?

Enfim, seja o que for, entendo bem sua situação, ainda bem que minha família é super compreensiva, meu martido entende desde o primeiro momento que tem algo errado porque sempre fui hiper ativa (literalmente) e nos últimos anos desacelerei bastante. Mas imagino que as pessoas devem ter dificuldade em entender que não é preguiça esser cansaço sem fim.

Eu fiz um blog sobre fibromialgia, mas acabei sem atualizar muito porque no meu caso,acho que quanto mais penso em mim como "fibromiálgica", mas me sinto mal, prefiro esquecer e nem pensar no caso, levando cada dia com o que vier.

No geral, estou bem e vejo que você também está sabendo levar as dificuldades. Boa sorte e um abração!

Ana Paula Matias Melo disse...

Olá Bruna,
Descobri há pouco tempo que sou portadora de miastenia gravis. Sofri muito antes da descoberta,pois alguns médicos disseram que era coisa da minha cabeça. Após ficar 41 dias hospitalizada sem andar, veio o diagnóstico. Sou feliz, vivo um dia de cada vez me sinto cada vez mais cansada. Adorei o seu blog.

Ana Paula ( 32 anos - Rio de Janeiro )